Não sei o que dizer. Pela primeira vez em muito tempo os pensamentos fluem mas as palavras, essas, não se concretizam, como se proferi-las fosse a prova final e irrefutável de que a realidade é mesmo real.
Sinto-me dentro duma história que não é a minha, mas que sou forçada a viver por imposição da própria vida que me escolheu. Vejo-me diariamente induzida a repetir tarefas e a verbalizar frases e sermões que me deviam ser destinados a mim. Observo, grande parte das vezes passiva, comportamentos e atitudes que não entendo. Vivo, na verdade, num mundo que não me pertence ou a quem eu não pertenço, um labirinto indecifravel do qual sairei sob pena de perder quase tudo o que tenho, sem nunca ter de facto nada.
As dúvidas e a inexperiência pesam mais que nunca, agora, que sou forçada a ser base de apoio assente em areias movediças. Faz falta a mão que me impeça de cair, também eu, num abismo sem fundo à vista. Aquele poço escuro onde se perdem corpos e almas para nunca mais serem encontrados. Não sei que mão é essa. Não sei se um dia me sentirei segura e amparada por alguem que não me peça o mundo em troca.
E é sempre assim.
* Este não é o teu momento. Nem tão pouco é teu o direito de perturbares a pouca paz que alcancei no silêncio que me deste. *