Volta
Estou presa. Encurralada no mundo onde me trancaste e deitaste a chave fora. A razão diz-me para não procurar nada além da saída, o coração aclama que a única saída são as razões que não me deste. Sinto-me a vaguear num labirinto sem escapatória onde entrei espontaneamente, mas de onde não me permites sair agora que te cansaste do jogo.
A consciência de que o caminho mais fácil não é aquele que, repetidamente, escolho nas horas que o tempo me rouba, não é suficiente para me mudar o passo. Não existe determinação suficiente que me guie para a luz e me retire da sombra onde me manténs. E se dar-te como único culpado deste meu estado caótico de indefinições e incertezas é, talvez, egoísmo ou cobardia, as verdades que me negaste sem lhes conheceres a essência foram o golpe fatal no nosso mundo de fantasia.
Talvez sejas aquele. A derradeira lição que muda sonhos, anseios e perspectivas. Que cria medos e temores defensivos que, ora me protegem de tantos outros com a tua falsidade camuflada, ora me negam o prazer de me entregar àquele que afinal sabe a sinceridade. És o que me oferece a mão e o sorriso. O que me vai puxando para si até conseguir a confiança que precisa para me deixar cair no momento certo. Para, à sucapa, deixar a minha mão deslizar na sua e ficar a ver-me mergulhar na teia que se foi criando, sem me permitir um porquê.
A inagualável linha entre o amor e o ódio. Atravesso-a todos os dias por ti. Amo-te nas falsas memórias que deixaste de ti. Odeio-te na terrível verdade que não me deixas esquecer. Estou cansada desta viagem. Não quero amar-te nem odiar-te. Quero apenas que deixes de existir no meu mundo, ainda que seja impossível estares mais ausente. Levaste o corpo e deixaste a alma que criaste. Já não te faz falta. Pelo caminho inventas outra.
Volta. Volta para levares a presença que deixaste nos espaços que partilhámos. Por favor, volta e acaba com o silêncio da resposta da qual fizeste a tua deixa final. Leva-me a guerra que desencadeaste ao te refugiares no leito das tuas verdades destorcidas e devolve-me a paz que tinha quando os teus lábios não me alcançavam. Desenha o ponto final que falta para poder fechar de uma vez o livro de esperanças que abri contigo. Volta para poderes partir. Volta.
* O silêncio fere. Sabias? *
